TAROUCA CIDADE

Em poucos concelhos, dum tão limitado perímetro, se nos deparam tantos monumentos, como no de Tarouca; alguns, preciosos, pelo seu valor artístico; outros, notáveis, pela sua importância histórica. Destes monumentos não podemos alhear a Igreja de S. Pedro na Vila de Tarouca influência que, na região, exerceram os Mosteiros de S. João e Salzedas, da Ordem dos Bernardos, fundados no século XIII. A fama deles, voando por muito longe, atraiu–lhes as simpatias de fidalgos, donas, infantes e reis. A religiosidade destes visitantes e também a sua ambição, prenderam-nos às margens fertilíssimas do Barosa e Barosela, onde, como aves em flácidos ninhos, uns quiseram ricos e devotos, por aqui passar a vida, outros descansar na morte. Deixaram sulcos indeléveis da sua passagem: são os monumentos, que o tempo tem respeitado, em alguns dos quais a História se cristalizou e a Arte deixou traços de imortal beleza.

Neste cantinho da Beira, nas faldas duma serra, há relíquias que falam do passado que os nossos maiores deixaram lembrado na dureza da pedra para glória e exaltação da Pátria.

A IGREJA DE S. PEDRO DE TAROUCA: ergue-se este igreja matriz de tarouca vetusto templo, misto de romano e gótico, no interior da cidade, sede do concelho, onde o vale começa, gracioso nas suas ondulações de terreno cultivado, para ir morrer na encosta de Rossas. Séculos e séculos volveram, depois que se assentou a primeira pedra siglada. Nenhuma data nos desvenda claramente o mistério da sua edificação. Tarouca, é povoação muito antiga. A tradição local considera a sua igreja como a sétima do país, na era cronológica da sua fundação. Seja como for, apesar dos sucessivos restauros, ela conserva características de origem suficientes, tais como capitéis arcaicos, modilhões e as colunas dos pórticos, que não nos repugna pensar que tivesse sido construída no século VI. Foi esta igreja do padroado da Coroa. D. Diniz doou-a a seu filho bastardo Fernão Sanches e este a trocou pela de Fonte Arcada dos monges de Salzedas, troca esta que foi confirmada pelo Rei no ano de 1335. Quatro relíquias primitivas chamam a atenção dos estudiosos: os seus dois pórticos, os modilhões e o seu túmulo, jóias ali engastadas, fulgindo como brilhantes, em anel de oiro de sublime quilate. O interior é de uma só nave dividida em dois espaços: capela-mor e corpo da igreja. Esta, tem por cima da porta principal um coro alto, apoiado nas paredes laterais através de mísulas e em duas colunas muito simples (românicas), onde estão implantadas as pias de água benta. Na parede lateral, do lado direito, ao fundo da igreja e encaixada na saliência que exteriormente suporta a escada que dá acesso ao coro, está a capela baptismal, com pia baptismal em granito e com a forma de rústico cálice redondo, acrescentado de outro, menor e de secção quadrada.

O ALTAR MOR, (bem como os altares laterais, do arco Altar mor da Igreja de Tarouca triunfal), é do período barroco, com uma bela talha dourada que deveria ter substuído o românico original, pois aqui se manteve toda a estrutura, para alem do portal românico direito de acesso à sacristia, na forma quadrangular da abside. O sacrário ostenta a meio um pelicano ladeado de anjos, tocando, uma cruz e uma escultura de Cristo Ressuscitado, em glória, em cima de uma arca tumular; em cinco patamares com motivos geométricos de talha, dentro de cripta suportada por colunas salomónicas nervuradas com motivos vegetais, o trono de exposições, que remata com coroa raiada decorada com figuras de anjinhos; dois falsos altares laterais onde se veneram do lado esquerdo o Padroeiro - S. Pedro, e, do lado direito - S. Miguel. O frontal do altar, é ainda dividido em três partes com moldura própria, também em talha. Todo o conjunto, rematado por tiara e chaves (os símbolos de S. Pedro, Papa), em que o ouro está minimamente bem conservado, deverá datar de meados do século XVIII.

Os altares do arco são simétricos, suportados por colunas Igreja de Tarouca salomónicas revestidas de motivos vegetais, (apoiadas em bases prismáticas), que ladeiam a peanha onde está apoiada a imagem, abaixo da qual se destaca o sacrário e é trabalhado, rematado por um dossel, com bastante leveza. os frontões dos altares propriamente ditos, são mais ricos do que o do altar-mor e têm a distingui-los, o esquerdo, uma cruz; o direito, um monograma A M, pelo que se poderia supor que aquele onde se venera a "Pietá" deveria ser dedicado a Cristo, segundo alguma invocação. O do lado direito, é de Nossa Senhora do Rosário. Coroando toda a peça escultórica, em que há um contraste nítido de menor riqueza em relação ao altar-mor, estão duas esculturas, anjos suportando estrelas, de grande dimensão.

O ALTAR DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS: situa-se na parede lateral direita e quase diametralmente oposto ao túmulo. Trata-se de um acrescento, aplicado quando uma nova devoção agitou a cristandade; a do Sagrado Coração de Jesus. Com efeito, este altar é pobre, se comparado com a força de alguns elementos escultóricos do templo e, pretende ser um ensaio de neoclassicismo. Suportado por colunas coríntias, há uma série de motivos, aleatórios, que contrastam.

O PÚLPITO: elemento primordial da Idade Média, adoptado dos próprios Cistercienses (e anteriormente dos Beneditinos) para a difusão da Palavra e o convite à oração, está situado sensivelmente a meio do corpo da igreja, do lado direito e a ele se tem acesso, pelo corredor que da sacristia, dá para o exterior. Nesta parede também se nota, ainda, o espaço destinado a dois confessionários, removidos.

AS SIGLAS: Neste templo, curiosamente, aparecem, tanto no interior, como no exterior, belas siglas características do românico, atestam sucessivas alterações ou acrescentos, que a adopção dos novos estilos impôs, à sua origem. Embora não sendo muitas, há-as bem diversificadas, o que denota o empenhamento de vários mestres na concretização do empreendimento.

TÚMULO MANUELINO: progredindo no interior e do lado Túmulo da Igreja de Tarouca esquerdo, logo a seguir à porta lateral, entre esta e o altar esquerdo, junto ao arco triunfal perto do altar de Nossa Senhora do Rosário. Deve ser de construção do ano de 1550 ou 1555. Talvez ali estivessem sepultados D. João de Menezes e sua mulher, os primeiros condes de Tarouca. É uma jóia artística como poucas há na Beira, fértil em túmulos, com afinidades de forma e grandeza do de Santarém, de D. Duarte de Menezes. A arca, sem estátua jacente, como a do Conde de Barcelos em S. João, sem data de inscrição, de nove palmos de comprimento e quatro de largura, apoia-se sobre quatro leões. Sua tampa, abaulada, orla-a um sulco canelado; ladeiam-na seis colunas, três de cada lado, com seus capitéis e plintos adornados de flores e figuras exóticas - tipos orientais, como é afinal a ornamentação deste túmulo, além das simbólicas cordas. De sobre a cripta que abriga a arca, pende em semicírculo, uma franja, cuja fímbria termina em nós. O arco ogival apoia-se nas colunas exteriores. É ele uma como grossa corda que vai cruzar-se no vértice da ogiva e o seu prolongamento entrelaça-se acima duma cimalha e termina em borlas nodosas. Dum e outro lado da curva deste arco, dois rolos de cordas formam como dois medalhões que, em círculo, esmaltam duas máscaras de perfil, com chapéus embicados. Está bem conservado este túmulo, só do lado direito foram mutiladas as colunas para construção do altar. A mesma barbaridade sofreram dois dos leões.

Ali no silêncio da antiga e tradicional igreja de Tarouca, isolada num canto da Beira, como ele nos recorda, na sua arquitectura sóbria e mística, uma das páginas da nossa história. Na sua estrutura são visíveis pormenores do estilo românico, de transição para o gótico. São disso testemunho os pórticos, principal e lateral esquerdo. O primeiro, dando acesso directo à rua, através de um lanço de escadas semicircular em número de sete, três das quais incompletas, é formado por um conjunto de quatro colunas, cada uma das quais rematada de capitéis lavrados, que suportam dois arcos em ogiva (gótico), com a correspondente volumetria. Inicialmente deveria ter sido um arco de volta redonda (românico, com tímpano lavrado) como o seu homónimo das Águias. Têm os plintos e fustes lisos o que já não acontece com os capitéis onde se podem ainda ver, apesar de erodidas pelo tempo, algumas singelas decorações: duas pombas bebendo; duas estrelas... Há um terceiro arco, interior, sem colunas.