José Leite de Vasconçelos
Etnólogo, Filólogo, Arqueólogo, Médico e Poeta


A 7 de Julho de 1858 nasceu Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo em Ucanha e viveu Leite de Vasconcelos durante algum tempo em Mondim da Beira, actualmente freguesias Tarouca. A fortuna abastada de seus avós paternos, veio a reduzir-se a quase nada quando chegou à posse de seus pais: daí que o moço José Leite, com o exame de instrução primária, um pouco de Latim e de Francês, de Inglês e Italiano, que parentes e padres lhe ensinaram e o que por sua conta aprendeu, houvesse de empregar-se na Câmara de Mondim, de cujo magro ordenado vivia toda a família.

Aos dezassete anos e meio vai para o Porto, onde o esperava, graças a empenhos de seu tio António Leite, o lugar de ajudante de ensino, no Colégio de Santa Catarina, e de amanuense da Secretaria do Liceu. É a expensas deste trabalho de todo o dia, que vai vivendo com os pais e ainda a noite a ocupava no estudo. Completou o curso de medicina no ano de 1886, no Porto, apresentando a Tese sobre o tema - EVOLUÇÃO DA LINGUAGEM, obtendo a distinção que lhe mereceu o prémio Macedo Pinto destinado ao mais distinto estudante.

Foi durante algum tempo Delegado de Saúde no concelho de Cadaval, mas, como tinha grande tendência para problemas de etnologia e filologia foi nomeado conservador da Biblioteca Nacional, abandonando assim a medicina.

Fundou a revista «LUSITANA», onde se encontram expostos os seus trabalhos de etnologia e etnografia. Foi professor no Liceu Central de Lisboa e na Academia de Estudos Livres. Regeu o Curso de Bibliotecário Arquivista. Junto com o seu íntimo amigo Dr. Bernardino Machado, criou o Museu Etnológico de Lisboa (que tem o seu nome) e fundou a revista «ARQUEÓLOGO PORTUGUÊS».

Apesar de ser formado em Medicina, a sua grande paixão foram as letras.

Em 1901, formou-se em Letras pela Universidade de Paris.

Foi professor de Epigrafia e Arqueologia.

Participou em muitos congressos, principalmente em Atenas, Roma e Cairo.

Nunca se casou. Dedicou toda a sua vida aos estudos, vivendo só com uma criada, um gato e os seus livros.

Escreveu muitas obras, das quais se destacam: «As Maias - Costumes Populares Portugueses»; «A Origem do Povo Português»; «Religiões da Lusitânia»; «Etnografia Portuguesa»; «Ucanha e o seu Pelourinho»; Memórias de Mondim da Beira»; etc.

Ainda estudante, com 24 anos, por 1882, descobria o dialecto mirandês e sobre ele compôs o seu primeiro livro de Filologia, elogiosamente recebido pela crítica nacional e estrangeira. Mereceu esta obra o único prémio pecuniário conferido pela Sociedade de Línguas Românicas de Montpellier (1883). Preocupou-se durante toda a sua vida com a verdadeira identidade do povo, seus usos e costumes; em defender a nossa identidade como nação.

A sua actividade científica só terminaria com a sua morte em 17 de Maio de 1941 em Lisboa no bairro de Campolide.

Cumularam-no de honras os mais ilustres nomes das Ciências e das Letras, nacionais e estrangeiros. Agraciaram-no com prémios e distinções, a ele que nada pedia, posto que os tivesse por merecidos. Pertencia a um sem número de sociedades científicas, podendo salientar-se o Instituto de França que lhe conferiu o prestigioso prémio de Raoul Duseigneur.

(Fonte: Jornal "Sempre Jovem" de Setembro de 1991)

Poesia de Leite de Vasconcelos:

Eu nasci nas agrestes serranias
Da nevoenta legendária Beira.
Lá onde o lobo a uivar consome os dias
E cresce e brilha a rubra flor da urgueira:

Onde o vento, ao passar, diz mil segredos...
E São João, no vivo e quente estio,
Soluça ao ver as moiras nos penedos,
Ou com as moças canta ao desafio.

Onde os rios, descendo sussurrantes,
Nas ladeiras em ásperos fragões,
Parecem velhos frades mendicantes
A rezarem pausadas orações.