VICTOR OSÓRIO DE GOUVÊA
Médico e Comendador da Ordem de Benemerência


Victor Osório de Gouvêa foi um distintíssimo médico que, em tempos passados e bem difíceis, Dr Victor Osório de Gouvêadurante cerca de 4 décadas, (1928-1968) prestou ao concelho de Tarouca um serviço inestimável na área da saúde. Sozinho e sem quaisquer condições, a não ser o exíguo compartimento de que dispunha no edifício dos Passos do Concelho para a Delegação de Saúde, ele exerceu, coordenou e assumiu inteiramente a assistência médica na totalidade do Concelho de Tarouca numa disponibilidade total de 24 horas por dia.

Desde que iniciou a sua actividade era constante a sua deambulação pelas estradas e caminhos do concelho quer fizesse chuva ou sol, quer de dia ou a qualquer hora da noite, nunca deixou de acorrer aos chamamentos para socorrer os doentes que não podiam sair de casa. Era, de facto, o automóvel do Sr. Dr. Victor que ao tempo se via mais vezes pelas estradas, caminhos e ruelas das mais humildes aldeias do concelho.

Homem inteligente, profundamente sabedor, sempre actualizado em tudo que dizia respeito à sua profissão, sempre se notabilizou como médico de excepcional competência que transmitia a mais absoluta confiança aos seus doentes. Com a discrição que lhe era peculiar lutou incessantemente pela saúde e bem das pessoas. Ligado desde muito cedo à Santa Casa da Misericórdia de Tarouca, esteve na origem da ideia da construção de um hospital, sensibilizando as pessoas que administravam esta Instituição e as autoridades que estavam à frente dos destinos do concelho na altura. Apesar das precariedades com que se debatiam todas as instituições e as infinitas teias burocráticas que foi preciso desbravar, com o contributo do humilde povo trabalhador do Concelho, com suas dádivas em vários cortejos de oferendas realizados, o dito hospital foi construído para grande alegria deste clínico, não pela sua vitória, não pela sua comodidade, mas sim porque passaria a haver mais dignidade e mais meios técnicos no tratamento dos seus doentes.

Este Homem, por detrás daquela sua estatura mediana e mesmo um quanto franzina, escondiam um homem de personalidade forte, de homem bom e com um coração cheio de amor ao próximo. Do seu habitual retraimento e reserva a cumprimentos rasgados e constante fuga ao normal relacionamento com as pessoas, faz da sua vida um verdadeiro sacerdócio dedicado quase exclusivamente ao exercício da sua profissão e à família.

Um homem indiferente às classes sociais, aos ideais políticos ou religiosos, a todos atendia incondicionalmente. Aos doentes pobres não só nada lhes cobrava pelos seus serviços como ainda os ajudava materialmente muitas vezes para poderem comprar os medicamentos que lhes receitava e assim poderem se tratar. Os seus honorários eram bem poucos porque nessa época a miséria era muita por este país fora e eram bem poucos os que podiam pagar pela saúde. Para a Santa Casa da Misericórdia sempre trabalhou gratuitamente como director clínico do Hospital.

Nunca se poupava aos sacrifícios, muitas vezes com risco da própria saúde para prestar assistência e velar pela vida dos seus doentes. Quando não podia se fazer transportar no seu automóvel, ele ia a pé calçando botas de borracha quando os caminhos estavam alagados ou cheios de neve.

Pelas características nobres e de abnegação, em favor do bem do próximo foi-lhe atribuido o grau de Comendador da Ordem de Benemerência. Atribuição justíssima mas que em nada lhe alterou o seu carácter.

Foi extraordinário o serviço que prestou ao concelho de Tarouca trabalhando toda a sua vida para os outros e se foi esquecendo cada vez mais de si próprio. Quando a doença o surpreendeu e lhe fez sentir que também ele precisaria de algum tempo para descansar e tratar-se, já terá sido demasiadamente tarde e, por isso, prematuramente nos deixou.

Fonte: "Sopé da Montanha" de 8/2000

Além de um largo da cidade a que foi dado o seu nome, em 15 de Agosto de 2000, foi inaugurado um busto à entrada do Centro de Saúde de Tarouca a perpetuar a sua memória. Homenagem muito pequenina para a gigante grandeza do seu caracter.

Eu, autor deste site, ao elaborar esta página, os meus olhos se enchem de lágrimas de emoção, porque foi meu médico quando ainda eu era um jovem. Nunca me esqueci de sua admirável entrega, fazendo quanto lhe era possível para debelar a fevre tifoide de que fui acometido e as suas preocupadas recomendações que dava a minha mãe, nas suas visitas domicilárias, para o sucesso do seu trabalho. Como estava a ser difícil a minha cura, internou-me no novíssimo hospital da Santa Casa da Misericórdia de Tarouca durante uma semana até que o mal me fosse debelado. Nessa altura grassava uma epidemia dessa grave doença e não houve doente que ele não tivesse socorrido, fossem quais fossem as condições meteorológicas, de dia ou de noite, ou do acesso à morada do doente.

Quando o hospital estava prontinho para funcionar, mas ainda por estrear, eu andava pelas suas imediações e lembro-me de ele me chamar para me mostrar o funcionamento de cada máquina, tais como a de análises à urina ou de radioscopias. Recordo com emoção o entusiasmo das suas explicações que hoje me fazem lembrar o de uma criança a quem se dá um brinquedo muito apetecido e que nunca imaginou poder vir a ter.